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Carta Aberta aos meus Filhos e Netos
 
Data:01/10/2009
 
 
 
Aroldo Teixeira de Almeida
 

O Celso Ferreira Lima, meu ex-aluno de Português e de Xadrez, entre as muitas e variadas atividades a que se dedica, arrumou agora uma nova: a de comunicador, através deste "Tablóide" que ele está dando à luz num parto certamente doloroso pelas contingências da vida, e eu lhe desejo pleno êxito na empreitada, que Barbosa Ferraz bem merece. Pois é, ele recorreu a mim para que eu lhe mandasse algum escrito para o rebento nascituro. E eu, cá com os meus botões: mandar o quê? Ando mais estéril que mulo nordestino. Mas surgiu-me uma luz, neste tempo frio e chuvoso de Curitiba: mandar-lhe um texto mais ou menos fúnebre que rabisquei há tempos num momento de pessimismo causado pelos meus constantes achaques da "terceira idade". Que a terra me seja leve!

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"Como um sopro se acabam os nossos anos. Pode durar setenta anos a nossa vida; os mais fortes talvez cheguem a oitenta. (Salmo 89)

Queridos filhos e netos :

Foi meditando nestas palavras do salmista, que rezo semanalmente na "Liturgia das Horas", é que me decidi a escrever-lhes esta carta, inspirada, aliás, em uma quase semelhante, escrita pelo professor e médico Afonso Antoniuk. Ele, com certeza, foi também pai e avô, e por isso compreenderá o por quê de eu me atrever a imitá-lo.

Hoje estou com mais de setenta anos, dentro, portanto, dos limites fixados pelo salmista. Sendo assim, mais dias ou menos dias, com muita sorte alguns anos a mais, quando este velhote meio careca já não for o mesmo, peço-lhes que tenham paciência e compreensão para com ele.

Quando eu derramar sopa, café ou remédio na roupa, esquecer de puxar o zíper da braguilha de minhas calças ou trazer desamarrados os cordões dos sapatos, lembrem-se das muitas vezes em que passei uns bons minutos mostrando a Vocês como amarrar os próprios.

Quando amigos ou vizinhos vierem conversar comigo e Vocês me ouvirem repetir sempre as mesmas histórias de antigamente, e que Vocês já sabem de cor, não me olhem com olhos gozadores e não me interrompam. Lembrem-se de que, quando pequenos, à beira de seus leitos eu lhes contava dezenas de vezes a mesma história do Chapeuzinho Vermelho e do Lobo Mau até que o sono viesse e Vocês acabassem dormindo. Não raras vezes eu até me atrevia a cantarolar com voz roufenha e desafinada ingênuas cantigas de ninar, quando o sono lhes custava a chegar.

Quando me virem todo embasbacado e ignorante diante da parafernália eletrônica que hoje é café pequeno para vocês, tenham paciência e não me lastimem com sorrisos matreiros. Lembrem-se de que fui eu quem lhes ensinou as primeiras letras e a vencerem os obstáculos da vida como muito bem Vocês o fazem agora, manuseando com maestria teclados de computadores, engenhosos celulares ou cordas de guitarras elétricas.

Se eu for à igreja, e demorar muito a sair de lá, atrapalhado entre os muitos bancos, ou porque me foi difícil achar a saída, esperem-me com paciência. Lembrem-se de que dezenas de vezes me dirigi a esse recinto sagrado para pedir a Deus que nunca faltasse a meus queridos filhos e netos, nem saúde, nem alimentos, nem lazer, Nem tudo aquilo que pudesse dar-lhes alegria e torná-los contentes e felizes.

Quando me falharem as pernas e o equilíbrio no caminhar, e nem a bengala conseguir manter-me em pé, deem-me suas mãos para ajudar a trocar os passos. Lembrem-se de como eu fiz com Vocês, para ensiná-los mais depressa a andar.

Peço-lhes agora, e isto é muito importante para mim, perdão pelas minhas constantes ausências naqueles tempos já distantes em Barbosa Ferraz. Ir e voltar de minhas aulas no saudoso Machado de Assis, manhã, tarde e noite, deixando-os dormindo de manhãzinha e encontrando-os adormecidos à noite e, e isto me fazia sofrer muito. Mas deveu-se à luta pela sobrevivência e para conseguir proporcionar-lhes o melhor, o que nem sempre foi possível fazê-lo, e de novo lhes peço também compreensão.

Quando me ouvirem dizer que estou cansado da vida, que todos os ossos me doem, e que me custa bastante carregar o peso dos anos, não fiquem pesarosos nem tristes, pois algum dia entenderão que o motivo das minhas queixas não contradiz o carinho e o amor que sempre tive por Vocês.

Não fiquem chorosos ao me verem encurvado e todo trêmulo; deem-me seus corações, compreendam os meus achaques e me apoiem, como eu fiz quando Vocês começaram a enfrentar a vida. Como eu os acompanhei ao iniciarem suas caminhadas, acompanhem-me ao terminar a minha. E eu lhes devolverei gratidão e sorriso pelo imenso amor que dedico a Vocês.

E se eu, em conseqüência do desgaste dos anos, começar a esquecer os seus próprios nomes e até mesmo confundir uns com os outros, façam-me esta caridade:não se esqueçam de mim!

Seu pai e avô, Aroldo Teixeira de Almeida

 
 
 
 
 
 
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